sábado, 7 de dezembro de 2019

Amor Fati


Trilha sonora recomendada: Beethoven's 5th, 1st Movement


Eu caminhava distraído pelas ruas estreitas daquela cidade tão charmosa. Eram cinco da tarde de um domingo de final de Outono, logo, quase noite. Apesar da calçada majoritariamente composta por paralelepípedos escorregadios e da iluminação deficitária, eu olhava para cima o quanto podia, a fim de capturar a beleza de cada um dos prédios renascentistas e do conjunto arquitetônico.



Cheguei ao final de uma rua que oferecia duas possibilidades, a direita ou a esquerda. Apesar de ambas estarem vazias, escolhi a da direita e continuei. Não devo ter dado mais que dez passos quando vi, caminhando em direção oposta, uma jovem e seu cão. Ela, aparentando algo em torno de trinta anos, cabelos amarelados, estatura mediana, botas marrons, calças pretas e um sobretudo também preto que cobria uma blusa de lã azul. O cão, um pastor alemão aparentemente mestiço com alguma raça de porte menor. Eles caminhavam em velocidade similar à minha, com a moça segurando a guia na mão direita. Ao nos aproximarmos, olhei para ela no intuito de cumprimentá-la, mas ela tinha os olhos fixos no cão. Olhei então para o animal, que possuía um semblante amigável, e recebi em troca um sonoro e confiante, porém amistoso, “boa tarde”.



Rapidamente inspecionei o cenário ao meu redor, mas não vi qualquer indivíduo que pudesse me ter saudado daquela maneira. Estávamos nos cruzando, a moça, o cão e eu, quando ouvi novamente “boa tarde”. Olhei de novo para a moça, mas seus olhos ainda estavam fixos no animal. Esse último porém carregava um sorriso displicente e completou a saudação, “tarde fria porém bonita, não”? Confesso que sou afeito a animais e em especial a cães, portanto estabelecer diálogo com um deles é algo que eu sempre imaginara como desejável, até que aconteceu. Entre meu susto e minha busca pela reação correta, ainda ouvi, “não se preocupe, ela não se importa que eu converse com estranhos”.



Eu deveria ter me assustado, ou imaginado que aquilo se tratava de um chiste, mas ao invés tomei como algo momentaneamente normal e respondi, “sim, as tardes frias nesse ambiente sempre ficam esteticamente mais interessantes. Penso que essa arquitetura não combina muito com a luz natural”. O cão tomou com atenção minhas palavras, ou pelo menos era isso que a expressão de seu rosto entregava, e concordou, “observação interessante, de fato, sempre preferi passar por aqui à noite, obrigado por chamar minha atenção. O senhor parece ter bom julgamento estético”. Aceitei o elogio e acrescentei, “sou um amante das artes”. “Magnífico! Eu sou escultor. Gostaria de continuar essa conversa em um café?”, ele indagou. Eu já passava a considerar a hipótese, porém, não estava certo de como seria recebido pelos demais um diálogo entre um homem e um cachorro, principalmente pelos garçons. Imaginei que sua dona pudesse tomar parte na conversa, mas ela tinha a mesma expressão de quando a vi ainda se aproximando, um sorriso interrompido e os olhos fixos no cão. Declinei dizendo que “eu adoraria, mas estou com um pouco de pressa, sinto muito”. O animal não conseguiu esconder a frustração e baixou os olhos por alguns instantes, mas quase imediatamente reabriu o sorriso e com excitação, que também pude perceber pelo balanço agitado de seu rabo, propôs, “e que tal um café, na sua casa, na terça?”. A ideia me agradou, pois assim poderíamos conversar sem temer julgamentos. “Ótimo. Às cinco da manhã? Assim ainda teremos a penumbra mas também a expectativa de um dia inteiro”, propus. Ele aumentou a intensidade dos movimentos de seu rabo e apoiando as duas patas dianteiras em minha perna esquerda, me lambeu a mão e concordou, “perfeito, estaremos lá”. Olhei para a moça, buscando uma aprovação, mas nada vi de diferente. Dei meu endereço e nos despedimos. Alguns passos depois ouvi ainda uma última informação, “esqueci de dizer, meu nome é Fred”. Também contei a ele meu nome e seguimos como antes, em direções opostas.



Na terça às 4:55 ouvi batidas educadas à porta. Abri e lá estavam a moça e o cão. Ela trajava as mesmas roupas de domingo, segurava a guia com a mesma mão e continuava com o sorriso interrompido e o olhar fixo na região lombar do cão. Ele balançava freneticamente o rabo e trazia na boca uma peça de barro. Convidei-os para entrar e junto com eles entrou um vento gelado que me fez arrepiar os braços. Ele colocou no chão a peça que trazia e me explicou, “é um presente”. Recolhi a peça e limpei a saliva. Tratava-se de um martelo de barro em tamanho normal, muito bem esculpido e com o nome “Fred” gravado no meio do cabo. Agradeci e conduzi ambos para a cozinha.



Eu havia preparado ainda na noite anterior um bolo de cenoura, uma torta de pão e também havia comprado alguns biscoitos de chocolate com canela. Na cozinha eu tinha uma mesa com três lugares. Pedi a eles que se sentassem enquanto eu passava o café. A moça se sentou à direita e Fred ao centro. “Você tem uma casa aconchegante, muito bem decorada e parece ser confortável em todas as estações”, elogiou Fred. Agradeci mas elucidei que na verdade não era bem assim, pois a casa apresentava problemas de infiltração e tinha uma janela emperrada que deixava entrar muito vento, o que tinha efeitos muito desagradáveis durante o inverno. Ele assentiu com a cabeça e com o rabo.



Levei a garrafa até a mesa e perguntei à moça se ela preferia com ou sem leite. “Sem”, respondeu Fred, que em seguida completou, “ela nunca bebe leite”. A moça permaneceu impassível. “Da minha parte, eu gostaria de um terço de leite, por favor”. Fiz como ele requisitou e para mim servi apenas café. Fred e eu demos um gole, ao mesmo tempo, mas a moça não. Ele, percebendo meu incômodo socorreu, “não dê importância, ela prefere mais frio”. Deu mais um trago na bebida e comentou, “o açúcar está muito bem dosado. Você tem cuidado com os detalhes”, e antes que eu pudesse responder, emendou, “ainda no assunto da sua casa, conhece Nietzsche?”. Não entendi a relação de pronto mas sim, algumas de suas ideias me eram familiares, ao que confirmei. “Você concorda com a ideia de amor fati?”, indagou. “Penso ser, assim como o resto da existência, um conceito relativístico”, respondi. Ele me olhou como se já soubesse que aquela seria minha resposta. “Geralmente é o que todos pensamos quando consideramos melhor a ideia. O problema é que paramos aí, quando acreditamos já ter aprofundado o suficiente. A verdade é que essa afirmação é assustadoramente rasa”. A moça ergueu a mão esquerda e agarrou a xícara, sorvendo um pouco de café enquanto mantinha todo o resto do corpo imóvel, inclusive os olhos.



Rasa por que?”, indaguei. “Porque coloca a questão como binária” respondeu Fred, logo após sorver um pouco de café. “O contra-argumento é sempre o mesmo, que aqueles que se encontram em situação de injustiça ou sofrimento não deveriam sentir amor fati e sim um impulso no sentido contrário. Mas isso em nada invalida a ideia. E se o indivíduo se tornar voluntariamente afeito ao sofrimento? Não experimentará uma alegria que apenas poucos conhecem? Se quando injustiçado desenvolver uma apreciação pelo martírio, não estará regozijante durante sua resignação? O solipsismo é a única forma de se tornar inviolável. Seja via Nietzsche ou via Buda, no final, apenas a própria consciência é capaz de definir a existência. Não existe rei ou escravo além do que a consciência de cada qual definir. O resto são alucinações coletivas”.



Ouvi Fred com a xícara encostada nos lábios sem de fato sorver o café. Mesmo quando percebi que ele havia terminado, ainda permaneci na mesma posição por alguns segundos enquanto tentava encontrar uma resposta. Eram bons argumentos, contra os quais eu nada tinha o que oferecer. Considerando que vinham de um cão, a situação se tornava ainda mais vexatória. E como se lendo a situação a partir da minha própria perspectiva, Fred completou, “não se sinta mal ao ser contradito por um cão, como eu disse, rei e escravo não existem além de ideias, o mesmo se aplica a nós”. Durante esse último pronunciamento, Fred já descia da cadeira e sacudia o pêlo. Se espreguiçou como fazem os cachorros e me convidou, “venha apreciar um exemplo do que acabo de dizer”, enquanto tomava a direção da porta. A moça, que não havia soltado a guia desde o início, também se levantou e seguiu na mesma direção. Ao chegarem à porta, Fred me olhou com amabilidade e pediu, “poderia por favor abrir a porta?”. Rapidamente me levantei e fui até a maçaneta, abrindo a porta e novamente deixando entrar um vento gelado. Eram 5:35 da manhã. Os dois saíram e se encaminharam até a porta da casa vizinha, que a moça abriu sem tirar os olhos de Fred. Entraram e ele reforçou, “entre por favor, e fique à vontade”.



Apesar de já morar havia algum tempo em minha casa atual, eu nunca encontrara um único vizinho. Vez ou outra percebia alguns sons vindos da parede, sons que se assemelhavam a gemidos, mas nunca dei maior importância. Entrei na casa e vi um lugar simples e organizado, bastante limpo e com decoração predominantemente marrom. O lugar tinha um layout idêntico ao de minha casa, talvez pelas duas residências pertencerem à mesma pessoa e terem sido construídas ao mesmo tempo. Caminhamos pelo corredor e a casa parecia estar vazia até entrarmos no quarto.



Lá estava uma mulher que aparentava oitenta anos, muito magra, nua, suspensa por cordas que a deixavam imóvel sobre uma cama de lâminas, semelhante àquelas utilizadas por faqirs em suas exibições. A mulher tinha os braços e pernas roxos nas regiões onde estavam as amarras. Ao nos ver, não demonstrou qualquer surpresa. Olhou primeiramente para mim, diretamente nos olhos. Tinha um olhar forte e sereno, daqueles que só desenvolvemos quando não existe medo, ou quando a resignação é aceita como único caminho. Em seguida olhou para Fred e pareceu esboçar um sorriso, que foi completado ao olhar para a moça, que continuava a olhar para a lombar de Fred como na primeira vez que a vi.



Antecipando seus questionamentos, sim a conheço e sim, a coloquei aqui, há trinta e oito anos”, disse Fred, balançando o rabo e me olhando nos olhos com a mesma expressão amigável de sempre. Não pude evitar dar dois passos para trás. “E apesar de saber que você quer a razão do meu ato, vou antes enunciar o efeito, que é o mais importante e também a razão de estarmos aqui”. Rapidamente me virei e segui em direção à porta, mas antes da metade do caminho ouvi um latido alto e raivoso. Me virei e pude ver Fred com os dentes escancarados e rosnando como eu jamais poderia imaginar. Voltei para o quarto e a mesma expressão amigável de antes também retornara à sua face.



Perdoe pela forma, mas não posso deixar que você se vá antes de entender o porquê de eu ter classificado sua interpretação de amor fati como rasa. Olhe para ela. Está ali há trinta e oito anos, imóvel. Seus membros já estão perdidos com a gangrena. A dor é imensa, como ela já me confessou quando podia falar. Mas perceba o resultado. Ali está a concretização do amor fati. Se ela continua como está, ainda pode respirar e sua consciência continua ativa. Se as cordas se romperem ou seu corpo decidir que é o momento de parar, não há muito a ser perdido. Sem ter ao que recorrer, apenas sua consciência importa. Não existe mais medo, apenas amor, amor fati. Sua existência é tão solipsista que beira o egoísmo, e eu a invejo por isso, apesar de também estar feliz. Ela é uma guerreira, uma rainha, uma celebridade, as três ao mesmo tempo ou o que mais ela decidir. O espírito combativo venceu a fome e a dor, a majestade a colocou acima dos demais seres, o que a tornou digna de ser celebrada”, explicou balançando efusivamente o rabo.



Apesar de seu ímpeto na explicação, apenas uma questão existia na minha cabeça, que era como aquela mulher chegara àquela condição. Fred novamente antecipou, “e não me julgue imaginando que a coloquei ali contra sua vontade. Nos conhecemos na mesma rua em que conheci você, no mesmo horário. Tomamos café ali naquela cozinha em outra manhã fria. Contudo, ao contrário de você, ela não relativizava a consciência, apenas tinha medo de suas próprias conclusões. A liberdade é um fardo pesado para quase todos, e eu apenas a ajudei a carregá-lo. Você também precisa de ajuda”.



Saí correndo em direção à porta mas antes que pudesse alcançá-la, senti uma dor forte na panturrilha. Olhei e vi as mandíbulas de Fred cravadas ali. Apesar de meus gemidos de dor, ele me arrastou de volta para o quarto. A jovem e a velha ainda estavam na mesma posição, mas Fred agora estava livre, a menina não mais segurava a guia. “Sinceramente não entendo, você parecia feliz ao interagir comigo, parecia gostar de cachorros”, disse ele, com expressão de sincera consternação. “Sim, eu gosto, mas suas ações não se parecem com as de um”, retruquei, ainda com medo em decorrência da mordida, mas também com um pouco de raiva por estar onde eu me encontrava. “Por que não? Não é o cão o melhor amigo do homem? E o que fazem os amigos, não se ajudam mutuamente? Não existe real amizade sem reciprocidade. Os cães ficam felizes em fazer felizes os homens, e vice-versa. Assim, eu dou a você uma dose de verdade, o que te faz feliz, e sua felicidade me deixa feliz. Na vida, existem aqueles que gostam de oferecer e aqueles que gostam de receber. Os primeiros são egoístas, pois oferecem apenas para se regozijar com a satisfação de quem recebe. Eu reconheço que sou desses, mas isso não me torna menos amigo”. Mais uma vez Fred tinha bons argumentos. Mesmo na dor e na raiva eu não podia deixar de reconhecer. E percebendo que novamente eu não tinha uma boa resposta, continuou, “a ela eu ofereci a aceitação de si, e hoje transbordo de alegria ao ver no que ela se transformou. E a você também quero oferecer algo, mas não sei se terei outros trinta anos para contemplar sua felicidade”.



O melhor que pode me oferecer nesse momento é me deixar ir”, respondi já em princípio de desespero enquanto tentava me levantar, apesar da dor. “Mas se você partir agora, partirá por medo, e não é isso que um amigo deseja para o outro, principalmente sendo o melhor. Se quer partir, que seja por amor”. Ao terminar a frase, Fred avançou sobre minha garganta, abrindo ali um buraco que não me matou de pronto, mas deixou dor suficiente para que eu desejasse outra sorte. Eu lutava pela vida mas aceitaria de bom grado a morte. Fred percebeu. Balançando o rabo como nunca antes, começou a lamber meu rosto, vez ou outra passando por minha jugular exposta, “muito obrigado, somos de fato os melhores amigos”.








sábado, 11 de maio de 2019

O Bordel



Trilha sonora recomendada: Nina Simone - I Put a Spell on You


Eu era músico de bordel e foi com o dinheiro desse trabalho que paguei a faculdade e me formei em Matemática. Isso é tudo que tenho a relatar sobre meus estudos.

De quinta a domingo, das sete da noite até geralmente as sete da manhã eu embalava os ânimos, os naturais, dos clientes, e os artificiais, das colegas de trabalho.

Às quintas e sextas o clima era mais introspectivo, uma vez que minha performance se dava ao piano, que junto com minha voz compunha o único som vindo do palco. Já nos finais de semana um pequeno conjunto se formava, cabendo a mim a seção rítmica, na bateria ou percurssão. Particularmente, prefiro essas últimas ao piano, mas especialmente no contexto em que eu me encontrava, ser o único responsável por toda a emoção do lugar tinha um sabor diferente.

Era um tipo de ventriloquismo. Com a faixa bem escolhida, o tom de voz correto e a abordagem harmônica apropriada eu podia controlar o nível de consumo alcoólico, ereções e até gorjetas. Um cliente mais agressivo podia ser dominado com uma canção chorosa. Um mais melancólico se animava para a vida com uma pegada mais funkeada. Os abstêmios se embebedavam ouvindo samba. Os comprometidos não seguravam as lágrimas com um bolero. O gerente reconhecia minha habilidade, mas também sabia que dela não poderia fazer uso além do que eu permitisse. Sim, eu poderia embebedar a casa inteira se quisesse, mas por isso mesmo, por poucos conseguirem fazer o mesmo, ele preferia aceitar minhas migalhas a tentar controlar a situação. Assim, eu tinha completa liberdade artística, e de certa forma, total controle do lugar. Contudo sempre fui generoso, garantindo que ninguém jamais saísse sem antes gastar o suficiente. Minhas colegas também adoravam essa habilidade, e sobre isso já contarei mais.

Estar no palco sem ser o foco das atenções é uma experiência que sempre recomendo. É uma perspectiva única. Além das vantagens monárquicas sobre as emoções alheias, assistir de camarote aos desdobramentos me ensinou mais sobre lógica do que a faculdade, que a princípio justificava minha presença ali. Vou exemplificar.

Certa vez um grupo de quatro amigos entrou de forma bastante visível. O que parecia ser o líder possuía todas as dimensões exageradas, com destaque para a região abdominal. O segundo era como a antítese do líder. Tinha todas as dimensões reduzidas, com as pernas mais finas que os braços. O terceiro era o meio termo, sendo de uma normalidade tão excessiva que não consigo recordar qualquer característica digna de menção além da própria normalidade. O quarto não tinha relação física com o resto. Portador de um penteado marcante cuja intenção óbvia era disfarçar uma calvície quase completa, mantendo apenas um tufo de cabelo cobrindo a testa, era o que se mostrava menos desejoso de estar ali.

O de dimensões exageradas – vou chamá-lo de líder – ria alto, sempre em direção aos outros três. Parecia se importar mais com eles do que com minhas colegas, o que de início era compreensível, uma vez que é essa a atitude que se espera de um bom líder. Ele realizava gestos expansivos, dava tapas na nuca e nas costas do normal, ria do calvo e ameaçava o magro – talvez por esse último pleitear seu posto, foi a impressão que tive. Aquelas cenas naturalmente exigiam Total Eclipse of the Heart em sua versão original, que executei com uma pegada arrastada. Minhas colegas se aproximaram e sem cerimônia colocaram as mãos onde todos desejavam que elas estivessem, conforme indicaram as ereções. Observei enquanto fazia experimentos com oitavas, sempre aumentando antes de dimuir. O efeito não tardou, e o líder começou a empurrar os colegas para o quarto. Questionou a masculinidade do magro enquanto o fazia. Os três deixaram a mesa acompanhados de três das minhas colegas. O líder então se levantou e com feição de pranto se dirigiu à porta, deixando para trás minha quarta colega. Como um golpe de misericórdia, iniciei o refrão, mesmo fora de lugar, o que o forçou a me olhar. Olhei de volta e vi apenas tristeza e vergonha, ele sabia que eu sabia. Deixou a casa e retornou quarenta minutos depois, apenas um pouco antes dos outros três voltarem – o tempo da casa era padronizado em cinquenta minutos por quarto. Tão logo se viram, o líder voltou a rir espalhafatosamente, a dar tapas nos demais e a deles caçoar por ter sido o mais rápido.

Em outra oportunidade, entrou no recinto uma senhora aparentando estar próxima dos oitenta anos. Tinha os cabelos inteiramente grisalhos, trajava blusa de lã bege, saia azul escuro, meia-calça também bege e sandálias pretas, de salto baixo e bico aberto, que deixavam exibir seus calcanhares e também as pontas dos dedões. Mancava da perna direita e usava óculos, que pela grossura das lentes não tinha menos de três graus em cada lado. Sentou na primeira mesa que viu – talvez por ter os pés cansados – e esticou as duas pernas embaixo da mesa, como se estivesse se preparando para alguma ação mais desafiadora.

Confesso que de início não captei bem o que queria ou faria aquela senhora. Estaria perdida, buscando informações? Procurando algum parente? Talvez buscando trabalho? Eu precisava descobrir, e sabia o caminho a tomar. Iniciei Love Me Tender, mas sem vocais, apenas a melodia tocada ao piano. Recebi alguns aplausos. A senhora, contudo, se manteve impassível, mas passou a olhar ao redor, como se buscando alguém. Iniciei a voz. Ainda impassível ela recebeu o garçom com um apontar de dedos em direção a uma de minhas colegas, que estava sentada ao bar degustando um Cabernet Franc, não me recordo a vinícola. O garçom se dirigiu ao bar para cumprir a ordem recebida e a senhora então me olhou, algo impaciente ou até mesmo em um início de decepção, como se um plano já bem discutido estivesse falhando. Tão logo minha colega se aproximou, portando nada além de um stilleto preto, um spartillo azul e uma expressão de curiosidade, a senhora se levantou e com um esticar de braços expansivo porém formal, pediu que a outra se sentasse, ao que foi obedecida com certa naturalidade, afinal, era esse o trabalho da outra. Aquilo foi o suficiente para que eu entendesse a situação.

Fiz uma transição brusca para I Put a Spell on You, com um tempo tão similar quanto possível ao da versão original. A senhora instantaneamente voltou a cabeça e me olhou, com uma mistura de aprovação, agradecimento e cumplicidade, como se apenas nós dois compartilhássemos um segredo. Em seguida virou-se para minha colega e se apoiando em seus ombros, com dificuldade, subiu na mesa. Após se assegurar de que estava firme o suficiente, voltou-se para minha colega, que continuava sentada, e fitando seus olhos, se despiu, mantendo apenas a meia-calça. De forma imperceptível aos ouvidos menos treinados acelerei o tempo. O ouvido da senhora, no entanto, era sensível. Ela começou a dançar, se insinuar e coreografar a canção, com ênfase na parte que sustenta “… because you’re mine ...”. Minha colega ainda segurava a taça de vinho, mas sem saber como reagir, apenas observava a cena, se permitindo vez ou outra analisar aquele corpo machucado pelo tempo. A senhora, com um movimento deveras preciso para suas condições físicas tomou a taça das mãos de minha colega e lentamente derramou o líquido sobre a própria cabeça. Nada mais restando dentro, se abaixou devagar e colocou a taça sobre a mesa. Levantou-se e com a mão esquerda espalhou a parte do líquido que chegara até seu ventre para que também tocasse sua vulva. Com essa dose extra de lubrificação, a senhora começou um movimento ondulatório logo abaixo da região pubiana, primeiro com a mão esquerda e depois com as duas mãos. Acelerei o compasso. A senhora respondeu, com as mãos e com os quadris. Fechou os olhos por um instante e quando os reabriu, os direcionou uma última vez para minha colega, que observava imóvel. O clímax se aproximou. Aumentei minha voz em uma oitava. O clímax aconteceu. A senhora lentamente cessou os movimentos, sentou-se na mesa e levou o dedo médio da mão esquerda até a boca de minha colega, que aceitou a oferta, como sempre. Após ter seu dedo degustado por alguns segundos, a senhora se apoiou nos mesmos ombros, desceu da mesa e com olhar sereno se vestiu. Tirou do bolso da saia uma carteira de cor azul turquesa e de dentro desta um par de notas, que jogou sobre a mesa com naturalidade. Mancando como antes, se dirigiu à porta. Um pouco antes de sair, me lançou o mesmo olhar de antes, onde vi cumplicidade e também gratidão.

Como se pode concluir desses exemplos, tanto minha posição quanto meu talento para captar e manipular emoções eram privilegiados. Isso me tornou popular entre minhas colegas, com quem eu mantinha relações de negócios disfarçadas de camaradagem. Nenhuma delas morria de amores por aquele lugar, então, eu era retribuído à altura sempre que contribuía para que o trabalho tivesse resultados mais lucrativos ou prazerosos. Alguns clientes aparentavam ter mais dinheiro, outro eram mais asseados e outros eram mais atraentes. Cada grupo de colegas tinha uma predileção. As mais pobres queriam os ricos, as mais experientes, os asseados e as mais jovens, naturalmente, queriam os atraentes. Da minha parte, eu garantia que essa fosse a distribuição dos serviços, pelo menos às quintas e sextas.

Eu morava sozinho, a três dias de distância da casa de meus pais e era estudante, logo, capacidade financeira não era meu forte. Por mais habilidoso que eu fosse, como já demonstrado, o dinheiro ainda era um recurso escasso. Talvez eu devesse mudar de emprego, indo para um bordel maior, mas a configuração das coisas não deixava. Eu estava confortável ali, principalmente porque não tinha gastos com alimentação ou transporte quando estava a trabalho.

De todos que trabalhavam ali, eu era o único a não possuir carro próprio, e o bordel se encontrava em região bem distante de qualquer ponto de transporte público. Assim, eu invariavelmente dependia de alguma alma caridosa que pudesse dividir o transporte comigo. Na ida eu sempre podia contar com o gerente. Na volta, minhas colegas eram sempre solícitas, principalmente se o trabalho de distribuição mencionado acima tivesse sido exitoso naquela noite. Em especial, uma dessas colegas morava a cinco quarteirões da minha casa e todas as sextas e sábados me ajudava com o transporte de volta.

Obviamente, ao final de uma noite cansativa todos estavam ansiosos por algum relaxamento. O sono era o caminho natural, mas antes disso era necessário liberar a adrenalina. Nos ajudávamos nisso. Mesmo quando muito cansada ela ainda insistia em saborear meu membro, dizendo que encontrava ali cheiro de baunilha (coisa estranha mas convincente, já que ouvi o mesmo de pelo menos mais três colegas). Certa vez perguntei se não cansada de sexo após uma noite inteira dele, e ouvi de volta que aquilo era similar ao que fazia um Matemático quando brincava de sudoku. Aceitei a justificativa.

Sempre fazíamos o que devia ser feito no banco de trás de seu Vectra 2002 cinza. A coisa toda nunca levava mais que meia hora, porém naquele dia, talvez em um movimento de gratidão pelos bons resultados da noite, ela se prolongou nas preliminares, sustentando estar especialmente interessada em baunilha. Consenti. Terminada a degustação, que deve ter durado coisa de trinta minutos, iniciamos algo mais agitado, com ela se sentando em meu colo com o sutiã aberto, o que forçava seus seios contra meu queixo. Com experiência, promoveu um encaixe certeiro, que senti tão confortável quanto um banho quente. Ficamos ali por talvez dez minutos até que o veículo foi balançado não por nossas ações, mas por algum movimento externo. Em seguida, a janela do carona passou a receber murros cada vez mais fortes. Não conseguíamos ver quem estava ali uma vez que o ar condensado embaçava o vidro. Uma voz abafada começou a gritar, e inequivocamente dizia o nome de minha colega. “É meu marido”, ela alertou não com desespero ou preocupação, mas com uma naturalidade entediada. Enquanto descia do meu colo, me instruiu, “não levante a calça”. O relógio marcava 7:40. Ela destrancou a porta.

Ao perceber a porta destrancada, o marido entrou afoito, com um gato nos braços. Ela estava sentada ao meu lado esquerdo, ainda com o sutiã aberto. Sua calçinha ainda estava sobre o banco do motorista e eu ainda tinha meu membro à mostra. Com a entrada do marido iniciei um movimento para cobrir minha vergonha, mas fui impedido por ela, que colocou a mão direita sobre meu braço esquerdo. Tentei forçar mas fui interpelado pelo marido, que me apontou uma arma. Em situação de desvantagem, cedi. Com um sinal de cabeça, o marido instruiu que ela saísse do carro. Após ser obedecido ele também saiu, antes deixando o gato no meu colo. Ambos fecharam as portas por onde saíram. Supus que guardar meu membro ainda não era uma opção. Coloquei o gato do meu lado direito. Ele aceitou o novo lugar e após quatro lambidas na pata direita, deitou-se. Era um gato manso ao menos.

Voltei minha atenção para a conversa do casal, que estava ao lado da porta traseira esquerda. O marido reclamava de maneira eloquente e minha colega concordava com interjeições. Pareciam falar sobre o gato e o tratamento a ele dispensado por ela. Esfreguei o vidro e pude ver melhor as expressões. Ele indignado, ela arrependida. Após alguns minutos houve silêncio. Esfreguei o vidro de novo e percebi que pareciam ter chegado a um acordo. Ela voltou pela mesma porta por onde saíra. Olhei para fora e vi o marido se distanciando. Ela me lançou um sorriso cansado e dirigiu a mesma expressão para o meu membro. Se ajeitou, abaixou a cabeça e novamente o colocou na boca. O gato foi até lá, cheirou mas não se interessou, retornando para o lugar de antes. A flacidez do meu membro aos poucos desapareceu. Ela novamente me cavalgou. Gozamos e ajustamos as roupas. Fomos para os bancos da frente, exceto pelo gato que continuou deitado (saímos ambos pela porta esquerda para não incomodá-lo). Ela dirigiu até a porta da minha casa e sem desligar o carro se despediu “nos vemos mais tarde”. Saí e comecei a caminhar. Ela buzinou levemente. Voltei. Ela esclareceu, “o gato fica com você”. Abri a porta traseira direita, peguei o animal e fui para casa.



quinta-feira, 14 de março de 2019

Desistência


Trilha sonora recomendada: Bohren & Der Club Of Gore - Sunset Mission

Cedo demais é pior que tarde demais. O último pelo menos é realista, trazendo consigo a ideia de consolo. Tarde demais para isso mas ainda em tempo para aquilo. Já o primeiro é cego, de ignorância. Continua acreditando naquilo que já falhou.

Eu nasci cedo demais, tão cedo que nem fui parido.

Dizem por aí, os doutos, que a vida é fruto de baixa probabilidade. No início, as chances de não ser superavam em muito as do contrário, mesmo assim somos - ou pelo menos, vocês são, ainda.

Defendem também os doutos que essa distração probabilística é o que traz valor para a humanidade. Discordo, e afirmo que ninguém é douto o suficiente antes de enxergar o mundo da minha perspectiva.
Iniciando do fim, cometi suicídio ainda no útero. Sim, não foi aborto disfarçado de eutanásia, foi suicídio, voluntário, deliberado. E não me julgue agora pois já me dará razão.

Fui gerado com uma característica bastante rara (assim como a vida): ainda feto, desenvolvi plena consciência. Os doutos dirão que o mesmo ocorre a todos, mas meu caso foi diferente. Eu tinha plena consciência de onde estava. Eu ouvia e compreendia tudo que se passava do lado de fora, e eu me lembrava. Como meu cérebro se expandia na velocidade da infância, desenvolveu plenas habilidades linguísticas logo nos primeiros dias. Com três semanas eu já era capaz de discutir abstrações ao gosto do meu interlocutor.

Talvez você não me pergunte – e nem poderia, pois não existo mais – mas vou contar como era aquele hotel. Aliás, vou te ajudar a recordar, pois você também passou por lá, mas não teve a sorte que tive de poder sair sem pagar.

Eu me recordo perfeitamente do meu Big Bang particular. O nada se transformou em algo da mesma forma como um interruptor dissolve a escuridão. Mas nesse caso, tratava-se de um interruptor de bordel, que acende lâmpadas vermelhas que conversam com o sangue dos presentes, dando ordens, instruíndo cada glóbulo a acelerar seu passo e a tomar determinadas direções. Uma dessas direções costuma levar ao lugar onde eu me encontrava, voluntariamente ou não.

Ao meu redor, tudo era úmido, quente e asfixiante. Quando aprendi o significado de “solitária” nunca mais consegui aplicar outra descrição ao local onde eu me encontrava. Não podia me mexer, não podia enxergar para além do vermelho e era forçado a aceitar em meu organismo qualquer coisa que resolvessem me dar. Havia um cano enfiado na minha barriga que me forçava a isso. Tentei arrancá-lo, mas infelizmente minha musculatura não acompanhava minhas sinapses.

Após pouco tempo (meu tempo era diferente), e logo após aprender os termos necessários, eu já podia confirmar Kübler-Ross. Como prova do meu desenvolvimento intrauterino, posso até mesmo complementar Kübler-Ross. Existe um sexto estágio, que é o tédio, o pior deles, pois nos cinco anteriores pelo menos ainda há contra o que lutar. Então voltei minha atenção para o que havia fora daquela bolha. Como não podia fazer uso completo uso dos meus cinco sentidos, acabei desenvolvendo uma intuição de fazer inveja a videntes – e também a doutos. A partir desse ponto entendi as consequências da existência, e desenvolvi por ela o asco que me levou a interrompê-la.

Não sei quão rara é minha condição. Talvez seja mais rara do que a própria condição de estar vivo, posto que existem diversas manifestações desta última. Mas posso afirmar que sou dos poucos a conhecer a essência do existir, porque existi sozinho e tive consciência disso. E ao mesmo tempo, fui voyeur e protagonista da existência alheia. Paradoxalmente, eu existia sozinho, mas sempre acompanhado por minha mãe.

Por mais desenvolvida que fosse minha percepção do mundo, pelas razões já expostas, e por mais que minha posição fosse das mais privilegiadas para alguém que pretende observar outra vida, minha mãe sempre for a um mistério para mim. Tratava-se de uma vida quase sem padrões.

Não havia horário para dormir ou para se levantar, tampouco para se alimentar. Apenas duas coisas eram previsíveis. A primeira, bastante interessante não fosse pelo excesso, era a introdução de três substâncias pelo cano que me conectava a ela. A segunda era a intensidade física e emocional de suas atividades noturnas.

No primeiro caso, daquelas substâncias, pelo menos duas me eram fornecidas diariamente. A primeira delas sempre vinha quando ela acordava, independente da hora. Me lembro claramente da primeira vez. Aquela fumaça tomou conta do ambiente inteiro, sufocante, apesar do odor não ser dos piores. Experimentei dificuldades respiratórias momentâneas, mas após alguns minutos tudo se acalmou, como nunca antes. Uma calma reconfortante, turva, e até instigante. Me lembro que até o tubo que me entrava pelo estômago se acalmou, transformando-se em um girassol que desconectado sorriu para mim antes de abrir a boca e me arrancar o nariz. Gritei e desmaiei. Quando acordei o tubo havia retornado para seu lugar, tendo antes devolvido meu nariz. Talvez meu grito tenha sido assustador, porque das outras vezes em que aquela fumaça apareceu, a mesma calma sempre se instaurou, mas o tubo nunca mais sofreu qualquer metamorfose.

A segunda substância aparecia mais perto do anoitecer, e era líquida. Tinha um gosto forte, azedo, que eu detestei já na primeira vez. Mas como sempre vinha em abundância havia pouco que eu pudesse fazer. Após cinco minutos mergulhado naquele líquido eu experimentava pela humanidade o mesmo desejo que Calígula nutria por Roma. Mas após esses surtos de agressividade eu sempre dormia, e quando acordava tinha dores de cabeça tão fortes que desejava imediatamente ainda estar dormindo.

A terceira substância era utilizada em noites mais próximas ao que os vivos chamam de final de semana. Era esfarelada e o único efeito era me fazer debater com toda força para sair daquele lugar. Eu gritava a plenos pulmões e tentava rasgar as paredes daquele lugar. Acredito que minha mãe entendia a mensagem e por isso mesmo me respondia. As respostas, contudo, não vinham com palavras, mas com golpes muito fortes, que, por conta da posição em que eu me encontrava, sempre me acertavam no meio da cabeça. Independente do formato e intensidade da resposta, nunca a culpei por isso, e hoje até agradeço, pois acredito que tenha sido uma dessas pancadas que me despertou a habilidade de fazer essa narrativa.

Com respeito às atividades noturnas, nunca identifiquei a natureza, mas posso dizer que eram intensas. O que quer que me minha mãe estivesse fazendo, ora nos balançava com força, ora comprimia o espaço onde eu estava, e por vezes até nos lançava ao chão. Pelo menos duas vezes por noite chegava ao meu quarto uma quarta substância, essa já sem os efeitos das demais. Era uma substância viscosa, pegajosa, que parecia ser introduzida por insistência, e que minha mãe não parecia apreciar muito. Aliás, ela não parecia apreciar as atividades como um todo, pois a cada pausa para descanso seguia uma sessão de pranto, com a mesma intensidade das atividades, pois também nos fazia chacoalhar com força.

Confesso que balançar, da minha posição, não era das coisas mais agradáveis, mas eu suportava de bom grado pois a isso sempre se seguia uma banho em uma das outras três substâncias, o que me dava alguns instantes de distração até que as atividades fossem retomadas.

Esse conjunto de experiências me fez perceber, mesmo em tão tenra idade, que nada pode ser melhor que o tempo para suavizar ânimos. Me acostumei com aquilo e após alguns meses desenvolvi até mesmo um certo apreço pelos arrancos que tomávamos juntos, e passei a desejar aquelas substâncias tanto quanto parecia ser o caso com minha mãe, até que um dia, logo de manhã, uma sequência de eventos me fez repensar.

Acordei com gritos. Por mais exótica que fosse minha condição, com aquilo eu não estava acostumado, então recebi como novidade. Na sequência, senti meu quarto se encolher a dimensões impossíveis. Parecia ter início uma atividade no feitio das noturnas, mas de intensidade diferente, posto que os gritos não cessavam. Quando vi o líquido viscoso encharcando minha residência imaginei ter dormido em excesso, dado que aquilo só se dava após o anoitecer, mas tive meu raciocínio interrompido por um forte golpe na cabeça. Caímos. Mais quatro ou cinco golpes vieram. Alguém nos mandava sair. Minha mãe esperneou. Parece que aquele que nos golpeava e ordenava nossa saída tinha culpa por eu estar ali – derivei uma relação com àquela substância viscosa pela qual tanto asco eu aprendera a nutrir. E me pareceu também que de alguma forma minha presença passou a impedir o acesso de minha mãe às substâncias, pois aparentemente, o que ela possuia para barganhar já não era suficiente.

Naquele momento entendi o significado de fragilidade. Independente do curso do próximo passo, em algum instante tudo deixaria de fazer sentido, passasse mais um mês, mais uma década ou mais um século. O fim é invencível. E se a existência já era claustrofóbica, sem as substâncias ela seria de certo pior que o fim. Em meus poucos meses de consciência eu já experimentara mais que muitos longevos, então, por que postergar o inevitável? Melhor encerrar ali, por vontade própria, do que ser lançado em uma vala, ou ser atingido por um objeto perdido, ou chegar ao fim por qualquer causa alheia à minha vontade. Meus dentes já estavam suficientemente desenvolvidos e aquele tubo que certa vez, metamorfoseado em girassol me arrancou o nariz, agora pagaria por me ter feito perdurar mais do que devia. Mordi com a força de quem já se cansou. Jorrou dali uma quinta substância que eu ainda não conhecia – mais uma novidade. Minha mãe gritou. Me senti leve. Recebi mais um golpe. Deixei de ser.




quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Concessão




Trilha sonora recomendada: Iannis Xenakis - Metastasis

Ouvi a vizinha gritando. Na verdade, grindo (gritando e rindo). Ela gritava alguma coisa que eu não entendia e na sequência ria, como se imitando um relinche. Tanto o grito quanto a risada eram guturais, e dada minha quase inexistente capacidade de interpretar sentimentos, não podia distinguir se ambos eram fruto de desespero, raiva ou do contrário. Mas também preciso colocar que – não como desculpa – a vizinha não era da minha intimidade, logo, a falha na identificação dos motivos por trás de suas atitudes não era de todo culpa das minhas inabilidades, as quais, um pouco mais tarde, me causariam transtornos que eu evitaria em podendo.

A ausência de relações com a vizinha tampouco era fruto de comportamentos arredios de qualquer das partes, mas sim da mudança recente da mesma para o quarto ao lado. Coisa de uma semana. Minha esposa também não tivera chance de se enturmar com a novata, não que eu soubesse, por isso fiquei tranquilo, caso contrário eu seria merecedor de qualquer atitude decorrente de falta intencional de intimidade. Se nem minha esposa – que é boa com humanos e suas características – se esforçou por estreitar laços, eu poderia ser facilmente excusado da minha tendência natural em me afastar de seres vivos. E sobre esse último ponto, não é que eu deseje mal a alguém, desejo antes que essa pessoa não tivesse existido. E dessa perspectiva sou terno e agradável, posto que a inexistência também implica ausência de sofrimentos e outras amolações.

Voltando ao tema da vizinha, ela também parecia gringa. Das poucas vezes que a ouvi praguejando não entendi palavra. E nesse caso, falo com certa propriedade pois apesar da minha natureza já detalhada, passei a me esforçar por entender o que ela dizia desde o primeiro momento em que nada entendi, e se falhei constantemente é porque de duas uma, ou ela não queria ser entendida ou então era gringa. E para justificar meu interesse em entendê-la, explico que não se trata de incoerência com meus modos, mas sim de uma tentativa de tirar proveito da situação, posto que ela e minha esposa mais cedo ou mais tarde se aproximariam, possivelmente por iniciativa da minha esposa. Assim, se ela fosse gringa, eu teria um motivo para tentar acelerar essa aproximação ao mesmo tempo em que já poderia construir a argumentação para meu afastamento de qualquer interação.

E naquele dia a vizinha, que até então se mostrara relativamente silenciosa, continuava grindo, de forma cada vez mais avolumada. Minha esposa que estava no banho me gritou a certa altura, questionando sobre a razão do barulho. Respondi que era a vizinha. Ela continuou no banho. Imediatamente após essa breve interação, a vizinha começou a bater em algo que parecia ser madeira. Gritava por dois ou três segundos e em seguida gargalhava por quatro ou cinco, ao mesmo tempo em que batia na madeira (devia ser a mesa). Ficou assim por cerca de dois minutos e parou por mais dois. Após isso ouvi uma porta se abrir e depois bater com violência, e em seguida ouvi murros com a mesma violência na minha porta. Era claro: a vizinha queria entrar em minha casa. Em minha defesa posso dizer que jamais dei qualquer chance de aproximação, como fica claro pelo que foi colocado até aqui. Acredito que também não tenha sido minha esposa, mas isso jamais saberei, pois a sequência dos fatos tornou tal questionamento inviável.

A vizinha batia com força e recomeçou a grir. Durante as batidas havia mais gritos que risadas, pelo que comecei a entender os gritos como resultado de sentimentos mais afoitos. Minha esposa indagou de novo do banheiro, ainda com o chuveiro ligado, o que se passava. De novo respondi que era a vizinha, mas que dessa vez ela estava à nossa porta. Uma vez mais minha esposa se calou. Os barulhos à porta mudaram de timbre, de murros para pancadas mais espaçadas e de som mais abafado. Contudo, o efeito se tornou mais intenso. Acredito que a vizinha passara a tomar distância e se jogar contra a porta. Julguei ser melhor abrir e enfrentar um diálogo ou algo nesse sentido a comprar uma nova porta. Me levantei da cadeira de onde contemplava a parede e fui atender as batidas.

Quando abri a porta vi que a vizinha já tomava distância para mais um encontrão. Tão logo percebeu não ser necessário soltou mais um grito – que de perto soava muito mais alto – e em seguida adentrou minha casa, sem ao menos me dirigir a palavra. Ao invés disso gargalhou e passou a correr o recinto como se buscando alguém. Ouviu o chuveiro ser desligado e se dirigiu resoluta ao banheiro, ainda gargalhando. A meu favor tenho a dizer que não tomei atitude pois, nessa situação, além de interagir com alguém pela primeira vez, eu também precisaria lançar perguntas de cunho mais íntimo, como por exemplo qual seria o interesse dela em adentrar grindo minha morada. E já sabedor de minhas habilidades, considerei que fracassaria na abordagem de qualquer forma, e que por isso nem valeria a pena tentar.

A vizinha abriu a porta do banheiro gritando, entrou rindo e fechou a porta gritando. Não intervi pois minha esposa tem jeito com pessoas. Tive mais certeza disso quando houve silêncio absoluto logo após o fechar da porta. Supus que minha esposa havia imediatamente compreendido as razões da vizinha, mesmo que em outro idioma, e que com ela passou a ter. Um certo orgulho me encheu o peito, tanto de minha esposa quanto de minha atitude de não intervir, que se mostrava acertada agora. Mas essa senação durou pouco, pois coisa de cinco segundos depois a vizinha retomou os gritos e risadas, porém dessa vez acompanhada por minha esposa.

De início pensei ser uma estratégia de minha esposa, que sendo boa com gente entendeu o espelhamento como a melhor técnica para iniciar a interação. E como já expus, pode ter sido isso ou pode ser que já tivessem se encontrado antes sem minha ciência, mas fato é que se entenderam, ambas grindo mais ou menos ao mesmo tempo. Imaginei que a conversa entre elas se restringiria ao banheiro, mas, me enganei, pois as duas saíram. Como justificativa de minha interpretação errônea, posso dizer que apesar de quente e úmido em decorrência do banho recente, o local também apresentava boa opção contra o frio do lado de fora. Independente disso saíram, grindo, mas sem qualquer expressão que me permitisse entender o humor da conversa. Ambas tinham semblante neutro enquanto griam. Minha esposa, com cabelos ainda molhados e enrolada em toalha vermelha tomara a frente da vizinha, que vestia jeans azul desbotado, sandálias salto baixo com meias também azul desbotadas e um suéter roxo de lã. As últimas palavras que ouvi de minha esposa foram sussurradas em meu ouvido esquerdo: é necessário.

Dito isso, minha vizinha, de um só movimento, deu um grito e abriu a primeira gaveta do armário, retirando de lá uma faca de churrasco. Apontou-a para mim. Nada fiz pois imaginei que minha esposa seria capaz de explicar a inviabilidade daquele caminho. Porém a coisa saiu ao contrário. Tão logo me encontrei rendido pela vizinha com a faca, minha esposa começou a me despir. Tirou primeiro minha camisa. Pensei em recusar, mas reconsiderei, pois a faca havia sido amolada recentemente, e assim me deixei desnudar. Primeiro a camisa, depois a calça e finalmente a cueca. Como eu calçava chinelos com meias, apenas as meias precisaram ser removidas. Uma vez nu, vi minha esposa puxando uma cadeira e nela me fazendo sentar. De soslaio pude ver a vizinha arrebentar os cabos da torradeira, do liquidificador, do forno e também de um secador de cabelos que ela trouxera do banheiro sem que eu tivesse percebido. Com esses cabos fui amarrado à cadeira, braços e pernas. De novo pensei em reagir mas como ambas continuavam grindo julguei não ser de bom tom.

Após algo como cinco minutos amarrado nu, a temperatura já começava a mostrar sua força. Passei a tremer de frio, reação similar à de minha esposa, que continuava grindo apesar de tudo. Imaginei ainda ser parte da estratégia de aproximação e não me manifestei. Ouvi batidas na porta. Minha esposa correu a abrir. Entraram três pessoas, um casal de meia idade, talvez sessenta anos, e uma senhora que aparentava oitenta. A vizinha correu a abraçar os entrantes, e foi prontamente correspondida. Apesar de não ser bom com pessoas, sempre fui bom com formas, e compreendi que se tratavam ali dos pais e da avó paterna da vizinha, posta a similaridade dessa última com o homem e do casal com a vizinha. Ainda, é importante também ressaltar que apesar do momento de emoção, nem a vizinha nem minha esposa deixaram de grir.

Antes mesmo que minha esposa pudesse oferecer, os três puxaram cadeiras, se sentaram e com semblante desanuviado mas pensativo me cravaram os olhos. Me analisaram por completo. Pareciam seguir um roteiro combinado, iniciando a análise nos pés e terminando na cabeça. O homem inclusive se aproximou e me revirou os cabelos, possivelmente em tentativa de aprofundar a análise. Quando o homem retornou à sua cadeira, parecendo ter finalizado sua avaliação, a mulher mais velha se aproximou e se ajoelhou. Pude sentir sua respiração na ponta de meu dedão do pé direito. Estudando melhor seus movimentos, entendi que tinha problemas de visão, e que se aproximara em excesso para melhor realizar sua análise. Pude sentir sua respiração por cada centímetro do meu corpo. O casal olhava tudo com enorme atenção, como se tentando aprender ao mesmo tempo em que se assegurava de que não haveria centímetro não avaliado. Reconheço que posso ter dificultado a situação, pois o frio me forçava a tremer. Também admito que não pude reclamar quando a senhora se deteve mais que o esperado (julgando pela média) na região dos meus testículos. Um vaporzinho quente trazia certo alento. E mesmo que longe de ser o suficiente, inegavelmente era melhor que nada. Durante a inspeção, a vizinha e minha esposa continuavam grindo, agora lado a lado. Minha esposa tremia muito em decorrência do frio, situação similar à minha, porém a dela era pior pior, pois não recebia ocasionais baforadas da senhora.

A situação então era essa: eu, amarrado nu a uma cadeira no meio da sala, um casal de mãos dadas sentado em duas cadeiras logo à minha frente, minha esposa ao meu lado esquerdo, a vizinha ao lado esquerdo de minha esposa, uma mesa ao meu lado direito e a senhora percorrendo minha anatomia com olhar atento, um tipo de atenção que só a experiência traz. Falo da experiência porque existe atenção de desespero, atenção de obrigação e atenção de agrado, e nessa última só se pode chegar por meio da experiência quando o assunto é realmente importante. Também preciso revelar que o casal parecia intensificar o aperto de mãos a cada movimento da senhora. Não sei dizer se era ansiedade ou apreensão, pois que não sou bom com gente. Minha esposa seguramente saberia interpretar.

A senhora chegou à minha cabeça, e após alguns minutos, com olhos marejados, se voltou para o casal e em sequência para minha vizinha, enquanto balançava a cabeça positivamente. O casal não conseguiu conter as lágrimas enquanto a vizinha iniciou um pranto compulsivo. Todos griam agora. A senhora se sentou em meu colo, mais exatamente em minha perna direita, e começou a conversar em outro idioma com o casal. A vizinha tomou parte na conversa. Todos choravam menos minha esposa, que continuava grindo. Após alguns minutos, os semblantes se desanuviaram e a conversa seguiu de forma animada, com sorrisos, o que, apesar de minhas escassas habilidades, me fazia entender que havia alguma satisfação no recinto. Apenas minha esposa continuava grindo.

Aproximadamente uma hora nesse cenário e a vizinha e minha esposa se olharam. Não entendi se houve cumplicidade, concordância ou algum tipo de ordem. O que sei é que minha esposa saiu do local, se dirigindo para o quarto, e a vizinha continuou conversando no mesmo tom com sua família. Isso mostra que também estive certo esse tempo todo com respeito às habilidades interpessoais de minha esposa, que entendia olhares. Enquanto eu chegava a tal conclusão, ela retornava do quarto segurando uma mochila. A avó da minha vizinha ainda sentava em meu colo quando minha esposa me beijou a têmpora esquerda e saiu de casa, ainda tremendo e enrolada na toalha vermelha, com o cabelo ainda úmido, deixando a porta aberta. Pensei em perguntar o destino, mas julguei que fosse o movimento final em sua estratégia de rapport, então deixei passar. Também fui distraído, confesso, pela sequência de pancadas gélidas que recebi do vento que adentrava minha casa sem qualquer dificuldade.

Quinze minutos após a saída de minha esposa, a família, ainda transparecendo alegria – pela primeira vez eu tinha certeza do meu julgamento nesse campo – voltou a grir, efusivos. O homem até mesmo saltava em uma perna só, a direita, no que parecia ser uma tentativa de dar vazão física a uma certa excitação. Comparando a forma como a vizinha gria no início, quando ainda dentro de seu apartamento, e agora, e tomando em consideração a certeza que tenho do humor dos grios quando em família, posso afirmar que os primeiros eram pelo menos o contrário dos atuais, logo, causados pelo oposto da alegria, qualquer que seja este.

Os quatro saíram abraçados. Pensei em indagar a razão da coisa toda, mas julguei que se assim procedesse a porta permaneceria aberta por mais tempo, logo, entendi ser melhor deixar passar mais uma vez, o que se provou acertado, pois tão logo saíram, fecharam a porta.

* É importante ressaltar que estive correto esse tempo todo sobre a nacionalidade da vizinha.



quinta-feira, 1 de março de 2018

Amnésia



Trilha sonora recomendada: King Crimson - THRAK


Acordei com os gritos. Desesperados, cortantes, do tipo que só a perda da esperança consegue produzir. Levantei de um salto, vesti a primeira calça que encontrei e saí do quarto, sem camisa, já com a presença do pior na imaginação. O quarto dava diretamente para a sala, e algo que estava posto no centro dessa última era o destino de todas atenções. O que quer que fosse, estava cercado por meus familiares e amigos mais próximos. Minha mãe, sem qualquer brilho no olhar apesar das lágrimas, gritava como se tivesse perdido um filho. Meu pai praguejava como se estivesse passando pela mesma situação. Mas não podia ser esse o caso, pois eu ainda estava ali e era filho único, logo, não podia ter perdido um irmão para que meus pais perdessem uma cria. Me aproximei um pouco mais e pude ver a parte de baixo de um corpo. Imediatamente me fugiu a saliva, e com a cabeça latejando acotovelei os presentes para ver quem era: eu.

Aquela visão me arrancou de uma vez o cérebro e o coração, pois parei de pensar e sentir. Era como se de fato eu tivesse passado de algo para nada. Pela primeira vez na vida pude fitar esse último nos olhos, mas após algum tempo tive que piscar, dado que aquilo não podia ser. Eu ainda estava ali, existindo. Minha consciência ainda me fazia companhia, logo eu ainda era, em toda a plenitude que o verbo ser abarca, embora não conseguisse tirar os olhos de meu próprio cadáver. Não sei quanto tempo permaneci daquele jeito, mas sei que foi o suficiente para que eu, o vivo, me tornasse o centro das atenções. Só que agora eu tinha consciência disso.

Busquei olhares e percebi o espanto de alguns, a desconfiança de outros e o desprezo de meus pais, o que era compreensível, uma vez que eu aparecera no velório de seu filho sem camisa e vestido em calças de pijama. Mas ainda assim eu era o filho, apesar de despertar certas dúvidas nesse tema. Meu pai me olhou com certa agressividade e me perguntou quem eu era. “Sou eu, pai”, respondi, com voz amargurada e com indícios de preocupação, pois meu cérebro, mesmo que contra minha vontade, já começava a buscar estratégias para explicar que o defunto na verdade era eu. Percebi imediatamente que minha resposta fora impactante, pois os olhares que antes tinham expressões heterogêneas urravam agora o mesmo sentimento: medo. Meu tio, único irmão de meu pai, foi o primeiro a responder a essa nova sensação. Entre lutar ou correr, seu gênio sempre o fazia escolher o primeiro. Agarrou-me pelos braços e me sacudiu, enquanto falava com agressividade (mas sem conseguir esconder o medo): “respeite a dor dessas pessoas, moleque. Responda, quem é você”. Só podia dar na mesma: “sou eu tio, não me reconhece?”. E ao dizer essas palavras, talvez influenciado pelo medo transpirado pelos demais, me deixei dominar por um princípio de desespero. Com uso de força reconhecidamente excessiva, me desvencilhei de meu tio e corri para minha mãe, que estava a duas pessoas de mim, no círculo inicial que ainda não se desfizera. Me coloquei em sua frente, de maneira que pudesse mirar seus olhos sem dificuldades. Segurei-a pelos braços e insisti, ou melhor, implorei: “mãe, não me reconhece? Sou eu, seu filho.” Como não obtive outra resposta além de um olhar apavorado, comecei a sacudí-la repetindo a mesma coisa, em tom crescente até me encontrar gritando: “não reconhece seu filho, mãe?”. Fui parado com um forte golpe no ouvido, que me fez deitar ao lado de meu cadáver. Ao virar o rosto vi que o golpe fora desferido pela mão direita de meu pai, que agora me olhava colérico. Ao baixar os olhos, vi meus próprios olhos, do outro eu, o sem vida.

Ao tentar me erguer, fui interrompido e forçado ao chão por meus três melhores amigos. Um deles, não vi quem, espremeu com força minha cabeça contra o solo, e pude sentir o cheiro da minha morte, ao lado. Mesmo focado em lutar para me livrar da imobilização, consegui ouvir minha namorada (havíamos nos conhecido no final de semana anterior) ligando para a polícia. Após alguns segundos de tentativas frustradas percebi que o melhor seria me deixar vencer e permanecer naquela posição até a chegada dos oficiais, quando tudo seria enfim esclarecido.

As mulheres voltaram ao pranto e os homens, a consolá-las, menos os que estavam a me segurar. Após dez minutos, acredito, ouvimos batidas na porta. Eram dois oficiais. Meu tio correu a explicar que aquele sujeito no chão, o vivo, jurava ser o morto, o que só poderia se dar por efeito de drogas. Meus amigos me soltaram e os oficiais me levantaram e me algemaram, com o desprezo de quem é treinado para ser alheio à dor alheia, qualquer que seja ela. “Quem é você, rapaz?”, ouvi de um deles, que parecia ser o chefe. “Sou aquele no chão, e posso provar”, respondi antes de ser socado com força no estômago, como explicação de que com polícia não se brinca. “Onde estão seus documentos?”, ouvi. Sem fôlego para falar e ainda me acostumando com a dor, apontei com a cabeça na direção do meu quarto. Fui levado até lá. Todos os presentes nos seguiram, estando meus pais à frente, meu pai amparando minha mãe. Apontei novamente com a cabeça na direção da primeira gaveta do criado-mudo. O chefe abriu e encontrou logo, em cima dos outros documentos, minha carteira de motorista. Já com algum fôlego, recuperado com certa rapidez por conta da esperança, disse a eles: “como podem ver, aí está minha carteira de motorista, agora podemos, todos juntos, tentar entender o que está acontecendo”. Com essa frase devolvi o pranto à minha mãe, que entre convulsões e gemidos decretou: “assassino”. O termo foi dito com tanta veemência que imediatamente convenceu todos da hipótese. Meu tio veio com o dedo em riste: “como você sabia onde estavam os documentos dele?”. E meu pai emendou: “você matou meu filho”. Estive perto de desmaiar com aquelas acusações. Como era possível? Os documentos estavam ali para provar, como podiam não me reconhecer? Tentando me desvençilhar do oficial que me segurava virei o corpo e no caminho mirei um espelho, mas não fui correspondido. Eu não estava lá. Ao invés de mim havia outra pessoa, quase o oposto de mim, com a têmpora roxa (fruto do golpe desferido por meu pai) e sangue no nariz, vestido em calças listradas e segurado por um oficial de expressão neutra, facilitada por óculos escuros.

Novamente me fugiu a capacidade de pensar. Continuei estudando aquela outra pessoa, que era agora, em uníssono, acusada de assassinato. Ao voltar minha atenção para a turba senti alguma gratidão por estar protegido pelos policiais, que agora tentavam evitar meu linchamento. Naturalmente, isso era privilégio deles. Fui levado para o porão e novamente fomos seguidos por todos, minha mãe à frente. Fui amarrado a uma mesa de jucá, presente de minha avó materna por ocasião de meu nascimento. “Conte tudo”, disse o policial que antes me segurava mas que agora tinha as mãos livres para me socar. O primeiro golpe veio na região dos rins. A dor imediatamente tomou o espaço da confusão em que se encontrava minha consciência. “Aquele sou eu, estou jurando”, devolvi já com voz chorosa, ainda não do mesmo tipo que vem da falta de esperança, mas já nessa direção. Mais um golpe no mesmo rim veio confirmar que aquela não era a resposta desejada. E a esse se seguiram alguns outros. Meu tio, que era um homem de posses, sem muito esforço convenceu os oficiais a deixarem a confissão por conta dos que ali estavam. Acredito que tudo tenha durado por volta de uma hora. Perdi dentes, a certa altura não pude mais escutar por um ouvido, penso que por ausência do tímpano, já perfurado. Também perdi a consciência algumas vezes, me aproximando cada vez mais do indivíduo que ainda estava estirado na sala, no andar de cima.

Meu pai, meu tio e meu melhor amigo de infância, grande desportista, eram os que batiam mais forte. Minha tia, irmã de minha mãe e a própria eram as que mais vibravam, sentadas, como se assistindo a um final feliz. Minha namorada, de início, demonstrou certo pesar, mas teve sua piedade vencida pelo humor coletivo, e se tornou apenas indiferente. Um pouco antes do fim ainda fui invadido por uma última torrente de esperança. Caído, pude me ver no chão, em uma poça de sangue misturado com óleo. Meu reflexo era inequívoco: eu voltara a ser eu. Embora desfigurado pelas últimas carícias de meus entes tão queridos, a silhueta não deixava dúvidas. Com o último filete de energia oferecido pela esperança que mencionei acima, me coloquei de joelhos e com olhar terno declarei: “mãe, voltei”. O final de minha frase foi interrompido de forma abrupta por um cabo de vassoura, que se quebrou no choque com minha nuca. Morri novamente, aplaudido de pé por minha mãe.





sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Concurso


Eu corria. Já estava atrasado em vinte minutos, mas tudo estava deserto. Ofegante, cheguei ao final da rua, mas o local do concurso não estava lá. Só havia duas ruas e o mapa não poderia estar errado, portanto, o local só poderia estar na outra rua. Suei de medo. E se eu fosse apanhado na travessia? Vacilei por alguns instantes, temeroso, mas prossegui. Me faltavam dois passos para atingir o outro passeio quando ouvi o apito. Eu fora apanhado, por dois malditos passos. A Lei veio em minha direção.


Trajava um uniforme que em algum momento deveria ter sido azul, mas que hoje, desbotado, tendia para o branco. Caminhava em minha direção com dificuldade, fazendo o melhor uso possível de sua bengala. Cinco minutos se passaram e ele ainda estava na metade do trajeto. Tentando acelerar, fincou a bengala em um buraco mais profundo do terreno irregular que compunha a rua e caiu. Com voz sumida gritou por socorro. Não havendo voluntários, fui até lá e tomei-o no colo. Nos dirigimos para a esquina no final do passeio para o qual eu não deveria ter me atrevido a passar.



Ao colocá-lo no chão, ainda precisei aguardar oito minutos até que sua respiração se normalizasse (aprendi mais tarde que essa tinha sido uma escolha acertada, dado que ele era cardíaco). Aproveitei esse tempo para avaliar aquele que me aplicaria a multa. Tratava-se de um senhor próximo dos cem anos, vítima de distonia na perna direita, caolho e de rosto disforme pelas rugas. Quando percebi que ele começaria a falar, tomei a frente, tentando diminuir meu erro. Senhor Lei, me desculpe, eu só atravessei porque estava atrasado para o concurso. Recebi como resposta um quase inaudível “hein?”. Repeti a frase aumentando a voz, mas não adiantou. Berrei minha justificativa com meus lábios tocando suas orelhas. Ele entendeu e respondeu que eu me equivocava, posto que ele não era Lei e sim Justiça. Da mesma forma, tive que colar minhas orelhas em seus lábios para descobrir os próximos passos. Eu deveria ser levado à presença de seu superior, o Senhor Lei. Eu acabava de receber voz de prisão. Como meu captor tinha dificuldades de locomoção e eu ainda nutria esperança em relação ao concurso, tomei-o novamente em meus braços e nos dirigimos à Delegacia.



Chegamos e a porta estava aberta, nos aguardando. Entrei com olhar de respeito e encontrei no meio da sala, sentado em uma mesa redonda, o Senhor Lei, um homem de dois metros exatos de altura, olhos grandes, abdômen protuberante, calvície pronunciada, barba bem feita e bigode cobrindo a boca, se estendendo até o meio das bochechas. Informei a ele que eu havia sido preso pelo Senhor Justiça – que ainda estava no meu colo – por atravessar a rua, mas que havia uma justificativa forte para minha ação e que por isso eu merecia uma pena branda. O Senhor Lei me fitou, não entendi se com ira ou compreensão, se levantou, tomou dos meus braços o Senhor Justiça e o deitou ao chão, aos pés de sua cadeira, do lado esquerdo. Enquanto o deitava, argumentou que o mesmo deveria estar cansado após uma manhã tão movimentada. Voltou para sua cadeira. Me contou ser um dos vencedores do concurso.



- Eu não sabia. Por favor, aceite minhas congratulações – disse eu, respeitoso e simpático.


- Não as aceito. Não preciso delas – respondeu ele, calmo e fitando um ponto que parecia estar atrás do meu ombro esquerdo. E continuou:


- Sou apenas um dos vencedores, mas pode haver mais de um por concurso, o que significa que na verdade não existem vencedores, por isso não aceito suas felicitações.


- Mas ainda assim vejo bastante mérito. Não acredito ser capaz de vencer o concurso.

- Então por que queria participar?

- Porque nunca se sabe. Ninguém conhece as vontades da sorte.


- Pois você quase foi um dos campeões – devolveu em tom jocoso.


- Acho que o Senhor não entendeu bem a situação. Eu nem mesmo cheguei ao local do concurso. Descumpri a Lei, ou melhor, não segui sua vontade justamente tentando chegar lá, mas fui apanhado pelo Senhor Justiça – expliquei com apreensão.


- Qual era a minha vontade?

- Que seja escolhido um lado e nele se permaneça.


- Eu nunca disse isso.


- Como não? O Senhor Justiça explicitou que por descumprir suas ordens eu deveria estar aqui.


- Como pode ver aqui no chão, ele passa por certas dificuldades no exercício de suas obrigações.


- Mas deixei de comparecer ao concurso por nada?

- Como eu disse, você quase foi um dos campeões. Para isso você precisa ter participado do concurso, o que de fato aconteceu.


- Mas não avistei o local das provas nem qualquer participante. Eu estava sozinho, exceto pelo Senhor Justiça.


- Naturalmente. Esse concurso era seu. 



Amor Fati

Trilha sonora recomendada:  Beethoven's 5th, 1st Movement Eu caminhava distraído pelas ruas estreitas daquela cidade tão charm...